Por que o Ceará é o paraíso do downwind de kitesurf
Falar de downwind de kitesurf no Brasil é, quase inevitavelmente, falar do Ceará. Vento forte e constante, água quente o ano inteiro, litoral recortado por dunas e falésias e uma cultura profundamente ligada ao mar fazem do estado um cenário perfeito para expedições longas, de vários dias, conectando vilarejos de pescadores e spots mundialmente famosos.
Ao longo de aproximadamente 600 km de costa, de Cumbuco até Jericoacoara (e além), o kitesurfista encontra praticamente tudo o que precisa: vento side shore entre agosto e janeiro, boa estrutura de pousadas e escolas, apoio de buggy ou 4×4 na areia e uma comunidade que já entende bem o que é viver em função do vento. Para quem sonha em fazer downwinds de 10, 20, 50 ou até 200 km, é difícil pensar em lugar mais completo.
O que é, na prática, um downwind no Ceará
Downwind é velejar a favor do vento, geralmente percorrendo uma distância significativa entre dois pontos da costa. No Ceará, isso costuma significar:
- Entrar na água em uma praia e sair em outra, muitas vezes em outro município;
- Ter um carro de apoio pela faixa de areia acompanhando o grupo, com água, snacks e equipamentos reserva;
- Passar por trechos bem remotos, com poucos ou nenhum ponto de apoio;
- Combinar velejo esportivo com turismo: parando para lanchar em vilas de pescadores, dormindo em pousadas pé na areia, conhecendo lagoas e dunas pelo caminho.
Não é só “andar reto”: cada trecho tem suas características – ondas maiores, bancos de areia, desembocadura de rios, áreas com correntes fortes. Por isso, planejamento e segurança são tão importantes quanto a escolha da pipa.
Melhor época para velejar de downwind no Ceará
Uma das grandes vantagens do Ceará é a regularidade do vento, mas há meses realmente especiais para quem vai encarar downwinds longos.
De forma geral, o calendário de vento funciona assim:
- Alta temporada de vento (agosto a dezembro): é quando o vento sopra mais forte e constante, variando entre 20 e 35 nós na maior parte do litoral. Setembro e outubro costumam ser os meses mais “full power”. Para downwinds longos e para quem viaja de fora do Brasil, esse é o período mais indicado.
- Transição (julho e janeiro): ainda costuma ventar bem, mas com mais variação de intensidade. Em alguns dias o vento entra mais tarde, em outros enfraquece no fim da tarde. Funciona bem, especialmente para quem prefere velejar com kites um pouco maiores.
- Baixa temporada (fevereiro a junho): há vento em alguns dias, especialmente no fim de tarde, mas perde a regularidade. É a época de chuva e as condições podem mudar muito de uma semana para outra. Dá para kitar, mas fica menos previsível para expedições longas.
Se a ideia é montar uma viagem focada em downwind, priorize o período entre meados de agosto e começo de dezembro. Quem busca vento forte e mar mais “bravo” geralmente mira setembro-outubro. Para quem está em transição de nível intermediário para avançado e quer mais conforto, outubro-novembro costuma ser uma ótima janela.
Principais roteiros de downwind no litoral cearense
Existem dezenas de possíveis combinações, mas alguns trechos se tornaram clássicos tanto para brasileiros quanto para estrangeiros. Abaixo, alguns dos mais procurados, em ordem aproximada de leste (perto de Fortaleza) para oeste (rumo ao Piauí).
Cumbuco – Paracuru
Um dos downwinds mais tradicionais e acessíveis, muito usado como “porta de entrada” para quem quer experimentar expedições mais longas.
- Distância aproximada: 35 a 45 km, dependendo do ponto exato de saída e chegada.
- Perfil: ideal para quem já anda bem de ceifada, sabe relançar a pipa em qualquer condição e tem alguma experiência em mar aberto, mas ainda não quer encarar super distâncias.
- Pontos fortes: logística fácil saindo de Fortaleza, boa estrutura em Cumbuco e Paracuru, vários operadores oferecendo apoio, mar com seções de ondas excelentes (principalmente perto de Taíba).
- Atenções: respeitar a zona de banhistas na saída de Cumbuco e ficar atento a bancos de areia, que podem formar ondas cavadas em maré mais cheia.
Paracuru – Lagoinha – Mundaú
Um trecho visualmente deslumbrante, conectando praias mais tranquilas, com falésias, dunas e rios que desembocam no mar.
- Distância aproximada: 45 a 60 km, podendo ser dividido em dois dias (Paracuru–Lagoinha e Lagoinha–Mundaú).
- Perfil: indicado para velejadores com boa resistência física e autonomia, acostumados a navegar mais de 2 horas seguidas.
- Pontos fortes: paisagem variada, trechos de ondas divertidos, paradas incríveis em Lagoinha e Mundaú, com pousadas charmosas e boa gastronomia.
- Atenções: cruzar desembocaduras de rios sempre com o apoio por perto; nesses pontos a corrente pode “puxar” e o fundo muda com frequência.
Flecheiras – Guajiru – Icaraí de Amontada (Icaraizinho)
Região que, nos últimos anos, virou queridinha de quem busca uma pegada mais “roots-chic”: vilas pequenas, pousadas de bom nível, clima tranquilo e muito vento.
- Distância aproximada: 40 a 60 km, dependendo do trecho escolhido e das entradas em baías.
- Perfil: excelente para quem já fez downwinds intermediários e quer dar o próximo passo, navegando em áreas mais remotas.
- Pontos fortes: pouca gente na água, cenários belíssimos de dunas e coqueirais, água geralmente limpa e boa estrutura de apoio em Icaraí de Amontada.
- Atenções: alguns trechos de mar mais mexido com vento muito forte na alta temporada; é importante ajustar bem o tamanho do kite para não se exaurir cedo demais.
Itarema / Ilha do Guajiru – Preá – Jericoacoara
Para muitos, esse é o trecho mais desejado do litoral cearense, conectando a famosa laguna de Ilha do Guajiru ao entorno de Jericoacoara, ícone do turismo brasileiro.
- Distância aproximada: 80 a 120 km, geralmente divididos em 2 ou 3 dias, com pernoites em vilas no caminho ou no próprio Preá.
- Perfil: indicado para velejadores avançados ou intermediários com boa preparação física. Já é uma verdadeira expedição.
- Pontos fortes: vento fortíssimo e constante, alguns trechos perfeitos para downwind rápido e fluido, chegada em spots mundialmente famosos (Preá e Jeri), variedade de condições entre flat, mar mexido e pequenas ondas.
- Atenções: é comum velejar horas seguidas em mar bem aberto; usar equipamento em ótimo estado, colete de flutuação, capacete e, preferencialmente, comunicação com o apoio (rádio ou celular em bolsa estanque).
Downwinds multi-dias: combinando roteiros
Para quem já tem experiência e quer viver uma verdadeira travessia, muitas operadoras organizam roteiros de 5 a 10 dias, conectando vários trechos, por exemplo:
- Cumbuco – Paracuru – Flecheiras – Icaraí – Ilha do Guajiru – Preá – Jeri;
- Fortaleza – Cumbuco – Taíba – Paracuru – Lagoinha – Mundaú – Flecheiras – Guajiru;
- Itarema – Ilha do Guajiru – Preá – Jeri – Barra Grande (já no Piauí, combinando dois estados).
Nessas viagens, o carro de apoio carrega bagagem, reserva de kites, barras, pranchas e até peças de reposição. Os grupos velejam leves, apenas com mochila estanque, água, snacks e kit básico de primeiros socorros.
Segurança: pontos que não podem ser deixados de lado
O charme dos downwinds no Ceará está justamente em se afastar dos centros urbanos. Mas isso também significa estar, muitas vezes, longe de hospitais, bombeiros e sinal de celular. Algumas recomendações ajudam a reduzir riscos:
- Nunca faça downwind longo sozinho: vá sempre em grupo e, de preferência, com alguém que já conheça bem o trecho.
- Use equipamentos de proteção: colete de flutuação, capacete (especialmente em trechos com ondas maiores), leash de prancha quando indicado pela escola/guia.
- Cheque a previsão detalhadamente: vento, maré, altura de onda e swell. Pequenas mudanças podem transformar um trecho “tranquilo” em uma jornada bem mais exigente.
- Mantenha contato com o carro de apoio: leve celular em bolsa estanque ou rádios VHF, dependendo da estrutura da trip.
- Combine pontos de encontro e sinais: antes de entrar na água, alinhe com o guia onde serão as paradas, o que fazer se alguém quebrar equipamento e como proceder se alguém perder o grupo.
- Hidrate-se e alimente-se: desidratação é comum em downwinds longos, sob sol forte. Água, isotônicos e snacks leves fazem diferença enorme no desempenho e na lucidez.
Equipamentos ideais para downwind no Ceará
As condições de vento e mar do litoral cearense pedem alguns cuidados na escolha do equipamento:
- Tamanho de kite: velejadores homens, entre 70 e 85 kg, costumam usar muito 7 a 9 m durante a alta temporada; mulheres e pessoas mais leves, 5 a 8 m. Ter dois tamanhos disponíveis é o ideal.
- Tipo de prancha: a maioria opta por twin-tip confortável ou prancha de wave com bom volume. Para downwinds muito longos, pranchas um pouco maiores e com mais flutuação tendem a cansar menos.
- Trapézio: modele bem ajustado, já “amaciado”, para evitar assaduras. Em expedições de vários dias, muita gente leva shorts de neoprene ou lycra reforçada para proteger a cintura e as coxas.
- Proteção solar: camisa de lycra com proteção UV, boné ou chapéu de aba curta preso, óculos com tira, além de protetor solar resistente à água.
- Kit de emergência: faca de segurança acoplada no trapézio, linha extra, fita silver tape e algumas peças de reposição podem evitar que uma quebra simples encerre o velejo.
Logística: carros de apoio, escolas e guias
Um dos pontos mais importantes para quem vem de fora é montar bem a logística. No Ceará, os trechos de areia são em grande parte transitáveis de 4×4 e buggies, o que facilita o acompanhamento do grupo.
Você pode:
- Contratar um pacote completo com operadora especializada: normalmente inclui transfers, hospedagens, carro de apoio, guia na água e alguns jantares.
- Negociar diretamente com escolas locais: em spots como Cumbuco, Taíba, Paracuru, Flecheiras, Icaraí e Preá, muitas escolinhas organizam downwinds sob medida com guias experientes.
- Montar sua própria estrutura: alugando veículo 4×4, contratando motorista local e planejando as pousadas por conta própria. Exige mais planejamento, mas dá mais liberdade de roteiro.
Em todos os casos, é fundamental conversar com quem conhece bem a região, principalmente sobre marés, acessos de carro, trechos de risco e pontos de saída segura em caso de imprevisto.
Impacto local e turismo responsável
Os downwinds cruzam vilas de pescadores que, muitas vezes, têm no turismo de vento uma nova fonte de renda. É possível aproveitar intensamente o velejo e, ao mesmo tempo, gerar impactos positivos:
- Preferir pousadas e restaurantes locais, geridos por moradores da região;
- Respeitar a zona de pesca e os equipamentos dos pescadores na areia;
- Evitar lixo no trajeto, levando sempre uma pequena bolsa para guardar resíduos;
- Estar atento a áreas de proteção ambiental, evitando trafegar de 4×4 em dunas sensíveis ou restingas.
Esse equilíbrio sustentável ajuda a manter o litoral cearense como destino de kitesurf de classe mundial, sem descaracterizar a cultura local.
Dicas finais para planejar sua viagem de downwind no Ceará
Para aproveitar ao máximo sua experiência e transformar o downwind em uma jornada memorável, alguns cuidados fazem diferença:
- Comece com trechos menores (10–20 km) e vá aumentando a distância conforme se sentir confortável;
- Treine antes da viagem: resistência de pernas e core, natação e fortalecimento das costas ajudam demais;
- Chegue um ou dois dias antes do primeiro downwind para ajustar equipamento, testar vento e se adaptar ao mar;
- Planeje um dia de descanso a cada 3 ou 4 dias de velejo intenso;
- Tenha sempre cópias digitais de documentos, seguro-viagem que cubra esportes de vento e contatos de emergência salvos no celular.
Com boa preparação, respeito às condições naturais e uma logística bem amarrada, os downwinds de kitesurf no Ceará deixam de ser só um projeto distante e se tornam uma das experiências mais marcantes que um velejador pode viver na vida.
